Tangos & Tragédias é um espetáculo que reúne música, humor, teatro e muita interação com o público. Os recursos cênicos são garantidos pela ficção construída em torno dos dois personagens: o Maestro Plestkaya (Nico Nicolaiewsky) e o violinista Kraunus Sang (Hique Gomez).

Artistas vindos de um país imaginário chamado Sbørnia (Sbørnia do Sul, para ser mais exato), eles executam ao longo de uma hora e meia de espetáculo músicas do folclore sbørniano, canções brasileiras e sucessos da música internacional.

 
Tudo passando pelo filtro da comicidade, da teatralidade. Esses são os ingredientes que fazem Tangos & Tragédias agradar diferentes plateias e faixas etárias.

É um espetáculo universal pelo seu despojamento e por tratar com humor os grandes temas como o amor impossível, a dor-de-cotovelo e outras tragédias do ser humano.
 



Tangos & Tragédias
por Hique Gomez

”Lembro claramente a primeira vez que nos encontramos as margens da Recykla Gran Rechebuchyn, a Grande Lixeira Cultural da Sbórnia. Nossa querida terra natal a Sbórnia havia sido invadida. Nossa cultura estava ameaçada extinção. Nós fugimos e viemos parar no Brasil...

Já se vão muitos anos... Lembro muito bem na canoa de refugiados. Ele queria ir pra Iá eu queria ir para Iá... Eu fui para lá e ele foi para lá... Como estávamos na mesma canoa contrariadamente viemos parar aqui. Foi a primeira vez que percebemos que não combinávamos, e pensei “como vamos prosseguir???”
Minha memória guarda transparente os dias da crise em que chegamos no Brasil. O dinheiro era o Cruzado... A valorização os produtos nos supermercados era por hora, a desvalorização do Cruzado era por segundo.

Lembro que hoje de manhã senti saudades daquela crise financeira. Aquilo sim é que era crise. Os problemas aumentavam desde que ficou claro que não haveria como trabalhar com música no meio daquela crise, e eu pensava "Como vamos prosseguir? Fizemos alguns shows vazios em Porto Alegre e decidimos ir para o centro do país, onde fizemos muitos e muitos shows vazios. É claro, eu pensava, não combinamos... Como vamos prosseguir?

Até que um golpe de sorte nos jogou no programa do Jô Soares no SBT. O público adorou ver dois sujeitos que não combinavam contando suas histórias e cantando músicas antigas que não combinavam com o que se fazia na época.

Desde aí os teatros começaram a lotar. Daí surge para nós a maior definição de nossa carreira. Quando perguntavam qual o segredo do sucesso, nossa resposta era: "O segredo do Sucesso é o Fracasso!!!” Como vamos prosseguir se o segredo do sucesso da dupla é o fracasso?

Enfim fazíamos algum sucesso, mas como seguíamos não combinando eu pensava: “Como vamos prosseguir”? Os teatros começaram a lotar invariavelmente. Já tínhamos uma carreira, uma trajetória. Seria importante mantê-la, e esta questão foi crescendo dentro de mim. Eu buscava uma solução, não seria fácil... como vamos prosseguir? Nossas diferenças seguiam aumentando, continuávamos remando em direções diferentes.

Até que em meados do dia 15 de maio de 1991 às 15 horas e trinta minutos, ele me mostrou uma música que falava na busca da Verdadeira Maionese. Isso me trouxe uma esperança muito grande de que talvez nos conseguíssemos convergir...

Mas não, cada um foi procurar a Verdadeira Maionese da sua própria maneira. E a questão recrudesceu. Como iríamos prosseguir se nossas verdadeiras maioneses tinham ingredientes tão diferentes?
Bem, aí mesmo que a coisa ficou impossível. Como iríamos prosseguir se tudo conspirava contra? Bom... Fizemos uma versão do espetáculo para espanhol, fomos a outros países sem nenhuma perspectiva de continuar. Um certo sucesso está começando a estabelecer raízes na Europa, e a pergunta que do quer calar fala todos os dias na minha cabeça: Como vamos prosseguir?

No ano em que completamos 25 anos, seguimos sem nenhuma perspectiva de continuar, mas fizemos uma arte incrível para celebrar a data. Como vamos prosseguir se chegamos a um ápice de excelência tão absoluto.

Ficamos amigos... Cultivamos respeito mútuo. Enfim, começamos a remar na mesma direção... Mas minhas manhãs são premiadas com a questão: Como vamos prosseguir se as divergências que nos trouxeram até aqui não estão mais presentes? Agora ficou realmente difícil. Como... Como vamos prosseguir?"

 

Tangos & Tragédias por Nico Nicolaiewsky

“Eu lembro disso tudo que o Kraunus lembra, igualzinho mas completamente diferente. Nós nos conhecemos na Faculdade de Ciências Fictícias da Sbørnia num evento de divulgação do Teatro Hiperbólico. O Professor Kanflutz estava tentando explicar a criação do universo sbørniano, o Kraunus não calava a boca falando sem parar dum projeto de fazer sei lá o que, nesse momento eu vi a Ana Cristina. O tempo parou. Lembrou do primeiro beijo e depois não lembro de mais nada.

A primeira coisa que me lembro depois disso foi, não sei quanto tempo depois, quando estávamos apresentando o Tangos & Tragédias no Theatro São Pedro e eu vi na platéia a Ana Cristina. Eu disse pra ela umas verdades ali na frente de todo mundo. Ela saiu correndo envergonhada e eu me vinguei. Como diz o ditado sbørniano “fuigança ... vingança”

Lembro da primeira vez que saímos tocando do teatro para a rua. Nós íamos terminar o show, como sempre, saindo do palco e entrando no camarim. Acontece que o camarim estava trancado e nós não tínhamos para onde ir (o palco nesse teatro – Teatro Cândido Mendes no Rio de Janeiro – dava direto para o camarim, não tinha corredor), então começamos a sair do palco pela única saída que restava que era a saída para a rua e o povo nos seguindo e cantando. Aí nós continuamos a tocar e fomos até a praça. E o povo nos seguindo. A partir daí fazemos igualzinho em todos os shows como se fosse pela primeira vez.

Lembro da primeira vez que tocamos em Cádiz na Andaluzia e na saída o povo bateu palmas com o ritmo flamenco, eu confesso que fiquei um pouco assustado no início, depois fiquei curtindo. É lindo (dizem que eles só fazem ISS quando gostam muito de um espetáculo).

Lembro da primeira e única vez que um casal subiu da platéia para dançar o Copérnico e no meio da dança ele parou e pediu ela em casamento. Ela aceitou. O público adorou e eu também.

Lembro da primeira vez que os Paralamas do Sucesso nos convidaram para abrir um show deles no Morro da Urca. O show deles tava marcado para a meia-noite já era uma hora da manhã quando eu e o Kraunus entramos no palco para tocar. Foi a primeira vez que fomos vaiados no Rio de Janeiro.
Lembro da primeira vez que me pediram um autógrafo na rua. Lembro de todas as vezes que me pediram autógrafos na rua.

Lembro da primeira vez que brigamos e quase paramos com o show. Da primeira vez que resolvemos continuar com o show. Da primeira vez que pensamos em parar porque já estávamos fazendo o mesmo show a 3 anos. Da primeira vez que não fizemos um espetáculo por que tinha muito pouco público. Da primeira vez que escreveram no jornal que não tínhamos feito o espetáculo em desrespeito aquele pouco público que estava ali e mandou uma carta pro jornal.

Lembro da primeira vez que completamos 10 anos. Da primeira vez que completamos 20 anos, 21, 22 23, 24 ...25 anos de Tangos & Tragédias.

Lembro tudo isso mas "...parece como num sonho... eu sinto o galope numa velocidade vertiginosa que rasga o tempo e nos lança numa zona sem fronteiras , onde o principio e o fim se encontram. Onde o amor e o ódio, a verdade e a mentira o instante e a eternidade são pedaços ...de um pedaço....de um pedaço....de um pedacinho de um pedaço."