“Na Sbørnia as idéias não bóiam, flutuam...”
Fotografados por Drica Lobo
Entrevistados por Thalma Ghandú
Revista Etiqueta, abril de 1995
... Estava chegando a hora. Há dias tentava me encontrar com eles para uma entrevista, mas a agenda super-hiper lotada de reuniões e a loucura que é a vida deles tornava difícil esse encontro tão esperado. Mas, enfim, estava chegando a hora.
O local escolhido por eles para a entrevista é bastante insólito - o Instituto Butantã, às quatro e meia da tarde. O dia estava cinzento, e chego meia hora antes do combinado; mas pra minha surpresa eles já estavam lá. Após as apresentações informais, comentários sobre a fantástica entrevista deles no Jô Soares e uma lista de perguntas entregues a mim pela produção, que eles se recusavam a responder (De onde vocês tiraram a idéia para fazer o show? Como vocês se conheceram?), saímos caminhando pelo Instituto. Meu gravador ligadíssimo captava tudo, inclusive os comentários maldosos dos funcionários do lugar e até mesmo os silvos (ou sibilos) das serpentes:
ETIQUETA - Como foi que tudo começou?
KRAUNUS - Nós nascemos na Sbørnia. A Sbørnia era ligada ao continente por um istmo. Após sucessivas explosões nucleares, a nossa querida Sbørnia se desgrudou do continente, e hoje é uma ilha navegando pelos mares do mundo. E isto mexeu com nossas cabeças! E nós gostamos.
ETIQUETA - Mas em que sentido?
KRAUNUS - Gostamos porque as brumas de um pensamento gasoso varreram de nossa memória uma época de dor e desespero, ao mesmo tempo em que fincou nas profundezas de nossas almas “a estaca pontiaguda da dor”, que jaz esquecida no túmulo de nossa agonia.
ETIQUETA - Mudando de assunto, como explicaria esse sucesso do show de vocês?
KRAUNUS - Talvez seja exatamente esta a causa do enorme sucesso de uma de nossas danças folclóricas: “O Copérnico” (você não pode mexer com as pernas, você não pode mexer com as mãos... só cabeça).
Mexer com a cabeça das pessoas não é tão difícil quanto se imagina. Principalmente numa época em que a energia sinistra do concreto das grandes cidades tenta, com todas as forças, transferir a dinâmica criativa do sonho que existe no ser humano para dentro de um tubo de imagens.
ETIQUETA - Metaforicamente falando?
KRAUNUS - Não!!! Pensamento concreto, a velocidade, time is money, atropelo, Yoplait, Itaú, Sony, Mega star, BMG, Mac sucesso, Mac Donald’s, nós temos pressa, muita pressa. O sinal já abriu, e nós atravessamos a Av. Paulista correndo, passamos repentinamente diante da vitrine de uma livraria que exibe um novo e instigante título: “O tempo é uma ilusão!”. Um mútuo olhar semiperplexo mas deveras dedutivo encontra uma resposta que de imediato é rascunhada com bafo no vidro da vitrine:
T = M
T = I
M = I
(Kraunus falava apressadamente, quase sussurrando, enquanto Pletskaia permanecia alheio à entrevista. Caminhava ao nosso lado mas estava com o pensamento em outro lugar. Estava feliz e se iluminava quando olhava para uma foto que trazia no bolso. Quando eu lhe perguntei algo diretamente ele tomou um susto e ficou encabulado por não estar prestando atenção na entrevista, quando Kraunus rapidamente recomeçou a falar nesse tom urgente e sussurrando de quem conta um segredo, explicando a equação acima:)
KRAUNUS - Ou seja, se “tempo é dinheiro” e se “o tempo é uma ilusão”, logo “dinheiro é uma ilusão”.
ETIQUETA - Ahnn?...
KRAUNUS - Bem, passamos para o lado direito do cérebro, o lado intuitivo, o lado criativo, do pensamento abstrato, da não linguagem ou da linguagem simbólica. Sim, adoramos Alvarenga e Ranchinho, desde que achamos suas canções na lixeira cultural de nossa querida pátria natal Sbørnia. Temos quase certeza de que eles, como Willian Burrougs, sabiam que a linguagem é um vírus vindo do espaço. (vide o drama de Angélica)
Sim, adoramos Vicente Celestino. Ele trouxe a tragédia grega na carona da ópera italiana, e encenou toda esta magnitude no sublime cenário do picadeiro de um circo. Revelando a todos a quintessência da alma brega brasileira. Assim como o Redentor, que nasce num estábulo, faz incríveis revelações para logo ser renegado por seu próprio povo.
Contudo, não faremos desta alma brega a bandeira de um partido injustiçado, queremos apensas inseri-la na alma do mundo, onde há lugar para tudo e para todos. Lá no espaço onde singra a caravela dos artistas mortos. Lá onde Alvarenga e Ranchinho fazem graça com Grouxo e Chaplin, e Celestino flerta com Marilyn Monroe. Onde o amor e o ódio, a verdade e a mentira, o instante e a eternidade, onde o tudo e o nada são pedaços, de um pedaço de um pedacinho de um pedaço.
ETIQUETA - Como assim? Poderia deixar mais claro?
KRAUNUS - Sim! É lá onde tudo é possível, Jimy Hendrix e Celestino (isso já ficou provado quando Edgar Scandurra nos acompanhou em O Coração Materno).
Obras eternas. Seres eternos.
Estamos vivendo “Tudo ao mesmo tempo agora”, é a “Grande Síntese”, estamos a um passo da unidade final.
(Neste instante, Kraunus bateu com a cabeça nos galhos de uma árvore e caiu de costas no chão, eu fiquei assustada porque Kraunus agora, deitado no chão, continuava falando como se nada tivesse acontecido. Chamei Pletskaia que estava longe olhando algum tipo de cobra e não me escutou. Enquanto isso Kraunus continuava a falar:)
KRAUNUS - Estamos encontrando aldeias selvagens que nunca tiveram contato com a civilização, ao mesmo tempo que os primeiros andróides tornam-se uma realidade saída dos contos futuristas. Enquanto isso, um sopro místico, que parece vindo das eras primordiais do Big Bang nos arremessa definitivamente para uma nova realidade, onde as novas leis da física quântica parecem tolerar com a bondade dos sábios, todas as antigas e ingênuas teorias, desde “a Terra é plana” até “o átomo é indivisível”... Já sabíamos que algo estava para acontecer quando a União Soviética começou a se desmembrar. E continuamos a sentir esta sensação de que algo está para acontecer. Algo está para acontecer, está para acont...
(Neste momento acabou a fita do gravador. Kraunus continuava falando deitado no chão. Pletskaia se aproximava correndo em câmara lenta, assustado por ver Kraunus deitado no chão, e eu, atônita com a cena absurda, resolvo encerrar a entrevista antes que aquelas nuvens que fecham o céu numa velocidade impressionante chovam sobre minha cabeça.)